Will Gompertz Isso é arte? 150 anos de arte moderna do impressionismo até hoje - PDF Free Download (2023)

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2 Will Gompertz Isso é arte? 150 anos de arte moderna do impressionismo até hoje Tradução: Maria Luiza X. de A. Borges Revisão técnica: Bruno Moreschi

3 Para minha mulher, Kate, e meus filhos, Arthur, Ned, Mary e George

4 Sumário Lista de ilustrações Prefácio Introdução: Isso é arte? 1. Fonte, Pré-impressionismo: A confrontação da realidade, Impressionismo: Pintores da vida moderna, Pós-impressionismo: Ramificação, Cézanne: O pai de todos nós, Primitivismo, /Fauvismo, : Grito primal 7. Cubismo: Um outro ponto de vista, Futurismo: Avanço rápido, Kandinsky/Orfismo/O Cavaleiro Azul: O som da música, Suprematismo/Construtivismo: Os russos, Neoplasticismo: Impasse, Bauhaus: Reunião de escolas, Dadaísmo: O reinado da anarquia, Surrealismo: Viver o sonho, Expressionismo abstrato: O grande gesto, Pop art: Terapia de compras, Conceitualismo/Fluxus/Arte povera/arte performática: Jogos mentais, 1952 em diante 18. Minimalismo: Sem título, Pós-modernismo: Falsa identidade, Arte agora: Fama e fortuna, hoje Obras de arte por localização Créditos das ilustrações Agradecimentos Índice

5 Lista de ilustrações Preto e branco Cartuns de Pablo Helguera 1. Marcel Duchamp, Fonte (1917), réplica (1964) 2. Gustave Courbet, A origem do mundo (1866) 3. Édouard Manet, Almoço na relva [Le déjeuner sur l herbe] (1863) 4. Utagawa Hiroshige, Estação de Otsu (c ) 5. Edgar Degas, A aula de balé ( ) 6. Vincent van Gogh, Os comedores de batata (1885) 7. Auguste Rodin, O beijo ( ) 8. Constantin Brancusi, O beijo ( ) 9. Alberto Giacometti, Homem caminhando I (1960) 10. El Greco, A abertura do quinto selo ( ) 11. Georges Braque, Violino e paleta (1909) 12. Pablo Picasso, Ma Jolie ( ) 13. Giacomo Balla, Dinamismo de um cão na coleira (1912) 14. Umberto Boccioni, Formas únicas de continuidade no espaço (1913) 15. Kazimir Malevich, Quadrado negro (1915) 16. Vladimir Tatlin, Contrarrelevo de canto ( ) 17. Vladimir Tatlin, Monumento à Terceira Internacional (Torre) ( ) 18. Marcel Breuer, Cadeira B3/Wassily (1925) 19. Walter Gropius, Bauhaus, Dessau (1926) 20. Kurt Schwitters, Merzbau (1933) 21. Louise Bourgeois, Maman (1999) 22. Jeff Koons, Puppy (1992) 23. Pablo Picasso, As três dançarinas (1925) 24. René Magritte, O assassino ameaçado (1927) 25. Man Ray, O primado da matéria sobre o pensamento (1929) 26. Hans Namuth, Jackson Pollock pintando Autumn Rhythm: Number 30 (1950) 27. Eduardo Paolozzi, Eu era o brinquedo de um ricaço (1947) 28. Michelangelo Pistoletto, Vênus dos trapos (1967) 29. Dan Flavin, Monumento 1 para V. Tatlin (1964) 30. Sol LeWitt, Projeto serial, 1 (ABCD) (1966)

6 31. Cindy Sherman, Untitled Film Stills nº 21 (1978) 32. Jeff Wall, O quarto destruído (1978) 33. Eugène Delacroix, A morte de Sardanapalo (1827) 34. Jeff Wall, Mímica (1982) 35. Damien Hirst, A Thousand Years (1990) 36. Damien Hirst, A impossibilidade física da morte na mente de alguém vivo (1991) 37. Jeff Koons, Made in Heaven (1989) 38. Ai Weiwei, Derrubando uma urna da dinastia Han (1995) 39. Banksy, A limpeza da criada (2006) Lâminas coloridas 1. Eugène Delacroix, A Liberdade guiando o povo (1830) 2. Édouard Manet, Olympia (1863) 3. J.M.W. Turner, Chuva, vapor e velocidade (1844) 4. Claude Monet, Impressão, sol nascente (c ) 5. Vincent van Gogh, A noite estrelada (1889) 6. Paul Gauguin, Visão após o sermão, ou Jacó em luta com o anjo (1888) 7. Georges Seurat, Domingo à tarde na ilha de La Grande Jatte ( ) 8. Círculo cromático 9. Paul Cézanne, Natureza-morta com maçãs e pêssegos (1905) 10. Paul Cézanne, Mont Sainte-Victoire (c.1887) 11. Henri Matisse, A alegria de viver ( ) 12. Henri Rousseau, O leão faminto (1905) 13. Pablo Picasso, Les demoiselles d Avignon (1907) 14. Umberto Boccioni, Estados de espírito I: As despedidas (1911) 15. Wassily Kandinsky, Composição VII (1913) 16. El Lissitzky, Derrote os Brancos com a cunha vermelha (1919) 17. Lyubov Popova, Modelo de um vestido ( ) 18. Piet Mondrian, Composição C (nº III), com vermelho, amarelo e azul (1935) 19. Gerrit Rietveld, Cadeira vermelha e azul (c.1923) 20. Joan Miró, O carnaval do Arlequim ( ) 21. Frida Kahlo, O sono, ou O sonho (1940) 22. Willem de Kooning, Mulher 1 ( ) 23. Mark Rothko, O ocre (Ocre, vermelho sobre vermelho) (1954)

7 24. Robert Rauschenberg, Monograma ( ) 25. Andy Warhol, Díptico de Marilyn (1962) 26. Roy Lichtenstein, Whaam! (1963) 27. Donald Judd, Sem título (1972) 28. Sarah Lucas, Dois ovos fritos e um kebab (1992) 29. Tracey Emin, Todas as pessoas com quem já dormi, (1995)

8 Prefácio O texto é incompreensível deve ser um catálogo de exposição. JÁ EXISTEM MUITOS LIVROS excelentes de história da arte cobrindo o período moderno, do clássico A história da arte, de E.H. Gombrich, à obra beligerante e instrutiva de Robert Hughes, O choque do novo. Meu objetivo não é competir com volumes tão eruditos eu não poderia, mas oferecer algo diferente: um livro pessoal, divertido e informativo que se propõe a contar a história cronológica da arte moderna desde o impressionismo até os dias atuais (por razões de espaço e ritmo, não foi possível cobrir cada artista envolvido em cada movimento). Minha ambição foi escrever um livro recheado de fatos e vigoroso; ele não pretende ser uma obra acadêmica. Não há notas de rodapé ou longas listas de fontes, e por vezes dou asas à imaginação, fantasiando, por exemplo, uma cena em que os impressionistas se encontram num café ou Picasso oferece um banquete. Esses esquetes baseiam-se em relatos escritos por outros (os impressionistas de fato se reuniam num café particular e Picasso realmente promoveu um banquete), mas alguns dos detalhes incidentais das conversas são imaginados. A inspiração para escrever este livro veio de um monólogo que encenei no Edinburgh Fringe Festival em Eu havia escrito um artigo para o jornal The Guardian em que explorava a maneira como as técnicas da comédia stand-up podiam ser usadas para explicar a arte moderna de modo a atrair em vez de confundir. Para pôr a teoria à prova, matriculei-me num curso de stand-up e depois levei ao Edinburgh Fringe um show intitulado História dupla da arte. Ele pareceu funcionar: os espectadores riram um pouco, participaram e, a julgar por seu desempenho na prova a que foram submetidos no final, aprenderam um bocado sobre arte moderna. Mas não tentarei a comédia stand-up de novo. É na qualidade de jornalista e homem de rádio e televisão que abordo o assunto da arte moderna. O grande escritor David Foster Wallace comparou seus escritos de não ficção com uma indústria de serviços em que se dá a uma pessoa de razoável inteligência tempo para investigar algo em benefício de outras com coisas melhores a fazer. Espero que, numa pequena medida, eu também seja capaz de prestar esse serviço ao leitor. Além disso, tenho o benefício da experiência, tendo passado a última década trabalhando no estranho e fascinante mundo da arte moderna. Durante sete anos fui diretor da Tate Gallery, e nesse período visitei os grandes museus do mundo e as coleções menos conhecidas que podem ser encontradas fora da super-rodovia do turismo. Estive em casas de artistas e examinei as coleções particulares dos ricos, percorri ateliês de conservação e assisti a leilões multimilionários. Mergulhei na arte moderna. Comecei não sabendo nada e saí sabendo alguma coisa. Há muito mais para aprender, mas espero que o pouco que consegui absorver e reter seja útil ao leitor em algum grau, ampliando sua apreciação e conhecimento da arte moderna. Ela é, como descobri, um dos grandes prazeres da vida.

9 Introdução: Isso é arte? EM 1972, a Tate Gallery em Londres comprou uma escultura chamada Equivalente VIII, de Carl Andre, um artista minimalista norte-americano. Feita em 1966, ela consiste em 120 tijolos refratários que, quando dispostos segundo as instruções do artista, podem ser configurados em oito diferentes padrões, todos de idêntico volume. Quando a Tate expôs a obra em meados dos anos 1970, apresentou-a na forma de um retângulo com dois tijolos de profundidade. Os tijolos nada tinham de especial; poderiam ter sido comprados por qualquer pessoa por alguns centavos cada um. A Tate Gallery pagou mais de 2 mil libras por eles. A imprensa britânica teve um ataque coletivo de fúria. Desperdiçar o dinheiro da nação com uma pilha de tijolos!, esbravejaram os jornais. Até a The Burlington Magazine, um periódico de arte intelectualizado, perguntou: Será que a Tate enlouqueceu? Por que, quis saber uma publicação, a Tate havia esbanjado precioso dinheiro público com algo que poderia ter ocorrido a qualquer pedreiro?. Cerca de trinta anos mais tarde a Tate usou mais uma vez o dinheiro dos contribuintes britânicos para adquirir uma obra de arte incomum. Dessa vez, escolheu comprar uma fila de pessoas. Na verdade, não foi bem assim. A galeria não comprou as pessoas em si mesmas, isso é ilegal hoje em dia, mas de fato comprou a fila. Ou, mais precisamente, um pedaço de papel no qual o artista eslovaco Roman Ondák havia escrito instruções para uma obra de arte performática que envolvia a contratação de um punhado de atores para formar uma fila. Ele especificava num pedaço de papel que os atores deveriam formar uma fila ordenada em frente ao vão de uma porta trancada ou bloqueada. Uma vez em posição ou instalados, no linguajar artístico, todos deveriam ficar voltados para a porta e assumir um ar de paciente expectativa. A ideia era que sua presença intrigaria e atrairia transeuntes, que poderiam entrar na fila (o que, em minha experiência, eles faziam frequentemente) ou talvez caminhar ao lado dela, inspecionando perplexos e de sobrancelhas cerradas, querendo saber o que estariam perdendo. Meu bem, derivativo não é uma palavra bonita de se dizer. É uma ideia divertida, mas isso é arte? Se um pedreiro poderia ter pensado no Equivalente VIII, o arremedo de fila de Ondák poderia então ser considerado a expressão mais esdrúxula do gênero da idiotice. A mídia iria certamente enlouquecer. No entanto, não se ouviu sequer um murmúrio: nenhuma crítica, nenhuma indignação, nem mesmo uma série de manchetes zombeteiras da parte dos membros mais espirituosos da imprensa sensacionalista nada. A única cobertura que a aquisição recebeu veio na forma de um par de linhas

10 aprovadoras nos jornais de elite com maiores pretensões artísticas. O que aconteceu então durante esses trinta anos? O que mudou? Por que a arte moderna e contemporânea deixou de ser amplamente vista como uma piada sem graça para se tornar algo respeitado e reverenciado no mundo todo? Dinheiro tem alguma coisa a ver com isso. Enormes somas desaguaram no mundo das artes no curso das últimas décadas. Fundos públicos foram disponibilizados de modo generoso para o embelezamento de velhos museus e a construção de novos. A queda do comunismo e a desregulamentação dos mercados levaram à globalização e à emergência de uma riquíssima classe internacional, sendo a arte o investimento seguro preferido dos que enriqueceram recentemente. Enquanto bolsas de valores foram a pique e bancos quebraram, o valor da arte moderna continuou subindo, assim como o número de pessoas que entrava no mercado. Alguns anos atrás, a Sotheby s ficaria muito feliz se tivesse arrematantes de três países diferentes num de seus grandes leilões de arte moderna. Hoje esse número está bem acima de quarenta, incluindo novos colecionadores abastados da China, da Índia e da América do Sul. Isso significa que a economia de mercado básica entrou em jogo: é um caso de oferta e demanda, com a última excedendo em muito a primeira. O valor de obras muito admiradas de artistas mortos (e portanto improdutivos) como Picasso, Warhol, Pollock e Giacometti continua subindo como um elevador. O preço está sendo empurrado para cima por banqueiros recém-estabelecidos e oligarcas obscuros, cidades provincianas ambiciosas e países orientados para o turismo desejosos de fazer um Bilbao isto é, transformar sua reputação e ganhar maior proeminência encomendando uma galeria de arte que chame a atenção. Todos eles descobriram que comprar uma mansão ou construir um museu de arte equipado com a mais avançada tecnologia é a parte fácil; enchê-lo com alguma arte minimamente decente que vá impressionar os visitantes é bem mais difícil. E isso porque ela não existe em abundância por aí. E se não há nenhuma arte moderna clássica de alta qualidade disponível, a melhor alternativa é a arte moderna contemporânea (a obra de artistas vivos). Aqui, mais uma vez, os preços elevaram-se de maneira inexorável para aqueles considerados de primeira linha, como o artista pop norteamericano Jeff Koons. Koons ficou famoso depois de produzir Puppy (1992), um gigantesco filhote de cachorro incrustado com flores, bem como por seus numerosos personagens de desenho animado que parecem ter sido feitos com balões de papel-alumínio. Em meados dos anos 1990, era possível comprar uma obra de Koons por algumas centenas de milhares de dólares. Em 2010, suas esculturas cor de bala eram vendidas por milhões. Ele havia se tornado uma marca, sua arte tão instantaneamente reconhecível pelos bem-informados quanto a logomarca da Nike. Koons é um dos vários artistas vivos que se tornaram muito ricos num espaço de tempo curtíssimo graças a esse boom das belasartes.

11 É que nos sentimos mais à vontade trabalhando com artistas mortos. Artistas outrora empobrecidos são agora multimilionários com toda a pompa dos astros de cinema: amigos celebridades, jatinhos particulares e uma mídia ávida por relatar cada um de seus gestos glamorosos. O florescente setor das revistas sofisticadas do final do século XX deleitou-se em ajudar a construir o perfil público dessa nova geração de artistas que sabe lidar com a mídia. Imagens de pessoas criativas e pitorescas ao lado de sua arte colorida que estivera pendurada em deslumbrantes espaços de designer em que ricos e famosos se misturavam eram o tipo de banquete visual voyeurístico que os leitores sequiosos por mais dinheiro e status devoravam avidamente (a Tate Gallery chegou a contratar a editora da Vogue para produzir sua revista, Tate Members). Essas publicações, juntamente com suplementos de jornal, criaram um público novo, descolado e cosmopolita para arte e artistas novos, descolados e cosmopolitas. Era uma turma jovem, sem interesse por todas aquelas velhas pinturas marrons que a geração anterior venerava. Não, as fileiras cada vez maiores dos frequentadores de galerias queriam arte que falasse de seu tempo. Arte que fosse original, dinâmica e empolgante: arte que fosse sobre o aqui e agora. Arte que fosse como eles: desejável e moderna. Arte que fosse um pouco rock n roll: ruidosa, rebelde, divertida e avançada. O problema que esse novo público enfrentou, o problema que todos nós enfrentamos ao deparar com uma nova obra de arte, é de compreensão. Não importa que você seja um marchand estabelecido, um acadêmico de vanguarda ou um curador de museu; qualquer pessoa pode se sentir um tanto perdida ao encarar uma pintura ou escultura que acaba de sair do ateliê de um artista. Até mesmo sir Nicholas Serota, o internacionalmente respeitado chefe do império britânico Tate Gallery, vez por outra se confunde. Uma vez ele me disse que pode ficar um pouco amedrontado ao entrar no ateliê de um artista e ver uma nova obra pela primeira vez. Muitas vezes não sei o que pensar, disse ele. Ela pode me parecer muito intimidante. É um reconhecimento importante da parte de um homem que é uma autoridade mundial em arte moderna e contemporânea. Que chance temos nós? Bem, alguma, eu diria. Porque não penso que a verdadeira questão seja julgar se uma peça de arte contemporânea nova em folha é boa ou má o tempo se encarregará dessa tarefa por nós. Trata-se, antes, de uma questão de compreender onde e por que ela se encaixa na história da arte moderna. Há um paradoxo em nosso caso de amor com a arte moderna por um lado estamos visitando aos milhões museus como o Pompidou em Paris, o MoMA em Nova York e a Tate Modern em Londres; por outro, a resposta mais frequente que recebo ao iniciar uma conversa sobre o assunto é: Oh, não sei nada sobre arte. Essa confissão espontânea de ignorância não se deve a uma falta de inteligência ou consciência cultural. Eu a ouvi da boca de escritores famosos, diretores de cinema de sucesso, políticos ambiciosos e acadêmicos universitários de grande erudição. É claro que estão todos, sem exceção, errados. Eles sabem que Michelangelo pintou a Capela Sistina. Sabem que Leonardo da Vinci pintou a Mona Lisa. Sabem quase com certeza que Auguste Rodin foi um escultor e na maioria dos casos poderiam nomear uma ou duas de suas obras. O que eles de fato querem dizer é que não sabem nada sobre arte moderna. No fundo, o que querem mesmo dizer é que talvez até saibam alguma coisa sobre arte moderna que Andy Warhol fez uma obra com algumas latas de sopa Campbell, por exemplo, mas não a entendem. Não conseguem compreender por que algo que a seu ver uma criança seria capaz de fazer é aparentemente uma obra-prima. Suspeitam, bem no fundo, que isso é uma impostura, mas agora que os tempos mudaram não lhes parece aceitável em termos sociais dizer isso. Não penso que seja uma impostura. A arte moderna (abrangendo aproximadamente o período dos

12 anos 1860 aos anos 1970) e a arte contemporânea (designação que cobre sobretudo o momento atual, mas por vezes é usada para definir qualquer obra da Primeira Guerra Mundial em diante) não são uma piada sem fim que vem sendo encenada por alguns iniciados para um público ingênuo. É verdade, produzem-se hoje muitas obras a maioria, até que não resistirão ao teste do tempo, mas, da mesma maneira, haverá algumas que passaram totalmente despercebidas e serão, um dia, reconhecidas como obras-primas. As obras de arte verdadeiramente excepcionais criadas hoje em dia, e durante o século passado, representam algumas das maiores realizações do homem na era moderna. Só um tolo depreciaria o gênio de Pablo Picasso, Paul Cézanne, Barbara Hepworth, Vincent van Gogh e Frida Kahlo. Não é preciso ser músico para saber que Bach era capaz de compor ou que Sinatra era capaz de cantar. Em minha opinião, o melhor lugar para começar quando se trata de apreciar e usufruir arte moderna e contemporânea não é decidir se ela é em alguma medida boa ou não, mas compreender como ela evoluiu do classicismo de Leonardo aos tubarões em conserva e camas desfeitas de hoje. Tal como a maioria dos assuntos aparentemente impenetráveis, a arte assemelha-se a um jogo; só precisamos conhecer as regras e os regulamentos básicos para que o antes desconcertante comece a fazer algum sentido. E embora a arte conceitual tenda a ser vista como a regra de impedimento da arte moderna aquela que ninguém consegue realmente entender ou explicar enquanto se toma uma xícara de café, ela é surpreendentemente simples. Tudo o que é preciso saber para compreender o básico pode ser encontrado nesta história da arte moderna que cobre mais de 150 anos nos quais a arte ajudou a transformar o mundo e o mundo ajudou a transformar a arte. Cada movimento, cada ismo, está intricadamente conectado, um levando a outro como os elos em uma corrente. Mas todos eles têm suas próprias abordagens individuais, estilos distintos e métodos de fazer arte, que são o ponto culminante de uma ampla variedade de influências: artísticas, políticas, sociais e tecnológicas. É uma história sensacional, e espero que ela torne sua próxima visita a uma galeria de arte moderna ligeiramente menos intimidante e um pouco mais interessante. É mais ou menos assim

13 1. Fonte, 1917 SEGUNDA-FEIRA, 2 de abril de Em Washington o presidente norte-americano, Woodrow Wilson, exorta o Congresso a fazer uma declaração formal de guerra à Alemanha. Enquanto isso, em Nova York, três rapazes bem-vestidos deixam um elegante apartamento duplex no número 33 da West 67th Street e rumam para o centro. Eles caminham, conversam e sorriem, soltando de vez em quando uma risada contida. Para o francês magro e elegante que vai no meio, flanqueado por seus dois amigos norte-americanos mais atarracados, essas excursões são sempre bem-vindas. Ele é um artista que mora na cidade há menos de dois anos tempo bastante para saber se orientar, mas muito pouco para ver com indiferença seus encantos excitantes e sensuais. A emoção de andar pelo Central Park e seguir em direção a Columbus Circle nunca deixa de animá-lo; a visão espetacular de árvores transformando-se aos poucos em edifícios é, para ele, uma das maravilhas do mundo. A seu ver, a cidade de Nova York é uma grande obra de arte: um parque de esculturas repleto de objetos maravilhosos, com mais vida e urgência que Veneza, a outra grande criação arquitetônica do homem. O trio desce pela Broadway, uma mísera intrusa entre ruas ricas e belas. Quando se aproximam do centro o sol desaparece atrás de blocos impenetráveis de concreto e vidro, dando ao ar um sopro frio de primavera. Os dois norte-americanos conversam entre si por sobre o amigo, cujo cabelo está jogado para trás de modo a mostrar uma testa alta e uma linha de cabelo bem marcada. Enquanto os dois falam, ele pensa. Enquanto eles andam, ele para. Olha para a vitrine de uma loja de artigos domésticos. Põe as mãos em concha sobre os olhos para eliminar o reflexo no vidro, revelando dedos longos com unhas manicuradas e veias saltadas: há nele algo de um puro-sangue. A pausa é breve. Ele se afasta da fachada da loja e olha para cima. Seus amigos desapareceram. Ele olha à sua volta, dá de ombros e acende um cigarro. Depois atravessa a rua, não para procurar os amigos, mas para encontrar o abraço cálido do sol. São dez para as cinco da tarde e uma onda de ansiedade toma o francês de assalto. Logo as lojas estarão fechadas e há algo que ele precisa desesperadamente comprar. Ele aperta um pouco o passo. Tenta fechar a mente para todos os estímulos visuais à sua volta, mas seu cérebro reluta em obedecer: há tanta coisa a assimilar, a pensar, a desfrutar. Ouve alguém gritar seu nome e levanta os olhos. É Walter Arensberg, o mais baixo de seus dois amigos, que apoiou os esforços artísticos do francês nos Estados Unidos quase desde o momento em que ele pôs o pé fora do navio numa manhã ventosa de junho em Arensberg acena para que ele atravesse a rua de novo, passe pela Madison Square e tome a Quinta Avenida. Mas o filho do notário da Normandia levantou a cabeça e está olhando para cima, a atenção concentrada numa enorme fatia de queijo de concreto. O Flatiron Building cativou o artista francês muito antes que ele chegasse a Nova York um cartão de visita antecipado de uma cidade que iria transformar em seu lar. Seu primeiro encontro com o famoso espigão ocorreu logo que este foi construído e ele ainda morava em Paris. Viu uma fotografia do arranha-céu de 22 andares tirada por Alfred Stieglitz em 1903 e reproduzida numa revista francesa. Agora, passados catorze anos, tanto o Flatiron quanto Stieglitz, um fotógrafo e dono de galeria norte-americano, tornaram-se parte de sua vida no Novo Mundo. Seu devaneio é interrompido por mais um chamado queixoso de Arensberg, desta vez traindo uma pequena frustração, enquanto o corpulento patrono e colecionador de arte acena vigorosamente para o francês. O outro homem do grupo está ao lado de Arensberg e ri. Joseph Stella ( ) é um

14 artista também. Ele compreende a mente precisa, ainda que caprichosa, do francês e sua impotência quando confrontado com um objeto de interesse. Juntos novamente, os três avançam para o sul pela Quinta Avenida. Não demoram a chegar ao destino: o número 118 da avenida, o estabelecimento comercial de J.L. Mott, um especialista em encanamentos. Lá dentro, Arensberg e Stella abafam risadinhas enquanto seu companheiro procura atentamente por entre os banheiros e maçanetas em exibição. Após alguns minutos ele chama o vendedor e aponta para um mictório de porcelana branca comum, de costas chatas. Seus amigos voltam a se juntar a ele e o grupo é informado por um desconfiado vendedor de que o modelo de mictório em questão é um Bedfordshire. O francês assente com a cabeça, Stella abre um sorriso afetado e Arensberg, com uma palmada exuberante nas costas do vendedor, diz que vai comprá-lo. Os três saem. Arensberg e Stella vão chamar um táxi. Seu silencioso e filosófico amigo francês está na calçada segurando o pesado mictório, divertindo-se com o plano que urdiu para essa pissotière de porcelana: vai usá-la como uma travessura para desconcertar o tacanho mundo das artes. Olhando para sua reluzente superfície branca, Marcel Duchamp ( ) sorri para si mesmo: acha que ela pode causar um pequeno alvoroço. Comprado o mictório, Duchamp o leva para seu ateliê. Descansa o pesado objeto de porcelana sobre seu dorso e o gira, fazendo-o parecer estar de cabeça para baixo. Em seguida assina e data em tinta preta no lado esquerdo de sua borda externa, com o pseudônimo R. Mutt Sua obra está quase pronta. Só falta uma coisa: precisa dar um nome a seu mictório. Ele escolhe Fonte. O que havia sido apenas poucas horas antes um mictório comum, presente em toda parte, tornou-se, por força das ações de Duchamp, uma obra de arte (ver Fig. 1). Pelo menos na cabeça de Duchamp. Ele acreditava ter inventado uma nova forma de escultura: uma em que o artista podia selecionar qualquer objeto produzido em massa sem nenhum mérito estético óbvio e, libertando-o de sua finalidade funcional em outras palavras, tornando-o inútil, dando-lhe um nome e mudando o contexto e o ângulo do qual seria visto normalmente, transformá-lo numa obra de arte de fato. Chamou essa nova forma de fazer arte de readymade : uma escultura já pronta. FIG. 1. Marcel Duchamp, Fonte, 1917, réplica, 1964.

15 Era uma ideia em que já vinha trabalhando há alguns anos, desde que prendera uma roda de bicicleta e seu garfo dianteiro a um banco em seu ateliê ainda na França. Na época a construção era para sua própria diversão; gostava de empurrar a roda e vê-la girando. Mais tarde, porém, começara a vê-la como uma obra de arte. Havia levado a prática adiante ao chegar aos Estados Unidos, comprando, certa vez, uma pá para neve e gravando uma inscrição sobre ela antes de pendurá-la no teto pelo cabo. Assinou-a com seu nome verdadeiro, mas disse from e não by Marcel Duchamp, deixando bastante claro seu papel no processo: aquilo era uma ideia vinda de um artista em contraposição a uma obra de arte produzida por um artista. Fonte levou o conceito a um outro nível, muito público e confrontador. Ele ia inscrevê-la na Exposição dos Artistas Independentes de 1917, a maior mostra de arte moderna já montada nos Estados Unidos. A própria exposição era um desafio ao establishment artístico do país. Ela foi organizada pela Sociedade dos Artistas Independentes, um grupo de intelectuais livrepensadores e progressistas que estavam marcando posição contra o que percebiam como a atitude conservadora e asfixiante da National Academy of Design em relação à arte moderna. Eles declaravam que qualquer artista podia se tornar membro da Sociedade ao preço de um dólar, e que qualquer membro podia inscrever duas obras para a Exposição dos Artistas Independentes, contanto que pagasse uma taxa adicional de cinco dólares por obra de arte. Marcel Duchamp era um dos diretores da Sociedade e membro do comitê organizador, o que explica, pelo menos em parte, por que escolheu um pseudônimo para sua assinatura provocadora. Além disso, era da natureza de Duchamp brincar com as palavras, fazer piadas e zombar do pomposo mundo da arte. O nome Mutt era uma alusão a Mott, a loja onde comprara o mictório. Diz-se que era também uma referência à história em quadrinhos Mutt e Jeff, que havia sido publicada no San Francisco Chronicle em 1907 com um único personagem, A. Mutt. Mutt era inteiramente motivado pela cobiça, um malandro imbecil com uma compulsão para jogar e engendrar planos disparatados para enriquecer rapidamente. Jeff, seu crédulo companheiro inseparável, era um interno num asilo de loucos. Como Duchamp pretendia que Fonte fosse uma crítica aos colecionadores gananciosos e especuladores e aos diretores de museu ignorantes e pomposos, essa interpretação parece plausível. Assim também a sugestão de que a inicial R representa Richard, um coloquialismo francês para sacos de dinheiro. Com Duchamp nada jamais era simples; ele era, afinal de contas, um homem que preferia o xadrez à arte. Duchamp tinha outros alvos em mente ao fazer a escolha deliberada de um mictório para transformar numa escultura readymade. Ele queria questionar a própria noção do que constituía uma obra de arte tal como decretada por acadêmicos e críticos, que via como os árbitros autoescolhidos e em geral não qualificados do gosto. Cabia aos artistas decidir o que era ou não uma obra de arte. A posição de Duchamp era que se um artista dizia que uma coisa era uma obra de arte, tendo interferido em seu contexto e significado, ela era uma obra de arte. E ele percebeu que essa proposta, mesmo sendo simples de compreender, poderia causar uma revolução no mundo da arte. Duchamp argumentava que até aquele momento o meio tela, mármore, madeira ou pedra havia ditado o modo como o artista iria ou poderia abordar a feitura de uma obra. O meio sempre vinha primeiro, e só depois era permitido ao artista projetar suas ideias sobre ele com pintura, escultura ou desenho. Duchamp queria inverter isso. Considerava o meio secundário: o primordial era a ideia. Só depois de ter escolhido e desenvolvido um conceito o artista estava em condições de escolher um meio, e o meio deveria ser aquele que permitisse expressar a ideia da maneira mais bem-sucedida. E

16 se isso significasse usar um mictório de porcelana, que fosse. Em essência, arte podia ser qualquer coisa desde que o artista dissesse que sim. Era uma grande ideia. Havia uma outra opinião muito disseminada que Duchamp queria desmascarar como falsa: a de que artistas são de certo modo uma forma mais elevada de vida humana. Que merecem o status elevado que a sociedade lhes confere por supostamente possuírem inteligência, perspicácia e sabedoria excepcionais. Duchamp considerava isso um disparate. Os artistas se levam e são levados a sério demais. Os significados ocultos contidos em Fonte não se esgotam no jogo de palavras e na provocação de Duchamp. Ele escolheu especificamente um mictório porque, como objeto, isso tem muitas coisas a dizer grande parte delas de caráter erótico, um aspecto da vida que Duchamp explorou com frequência em seu trabalho. Uma vez que o mictório tinha sido virado de cabeça para baixo, não era preciso muita imaginação para ver suas conotações sexuais. Mas a alusão passou completamente despercebida aos olhos dos que se sentavam ao lado de Duchamp no comitê, não tendo sido, portanto, a razão pela qual seus codiretores se recusaram a permitir que Fonte fosse exibida na Exposição dos Artistas Independentes de Quando foi entregue no saguão do salão de exposições do Grand Central Palace, na Lexington Avenue, alguns dias depois que Duchamp, Arensberg e Stella tinham ido às compras, a obra gerou de imediato uma volátil mistura de consternação e nojo. Embora o envelope que a acompanhava, enviado por R. Mutt, contivesse os seis dólares exigidos (um dólar pela filiação, cinco para ter a obra exposta), o sentimento entre a maior parte da diretoria (alguns diretores, entre os quais Arensberg e, é claro, Duchamp, estando perfeitamente cientes de sua proveniência e propósito, argumentaram apaixonadamente em seu favor) foi de que o sr. Mutt estava zombando deles, como de fato estava. Duchamp estava provocando seus colegas diretores da Sociedade e o regulamento da organização, que ajudara a redigir. Desafiava-os a serem fiéis ao ideal que haviam coletivamente estabelecido, o de combater o establishment artístico e a voz autoritária da National Academy of Design com um conjunto de princípios novo, liberal e progressista: se você fosse um artista e pagasse, seu trabalho seria exposto. Ponto. Os conservadores venceram a batalha, mas, como sabemos, perderam a guerra de maneira espetacular. A peça de R. Mutt foi julgada muito ofensiva e vulgar por ser um mictório, algo que não era considerado um tópico apropriado para discussão entre a classe média puritana dos Estados Unidos. O time de Duchamp imediatamente renunciou ao comitê. Fonte nunca foi vista em público, ou alguma outra vez. Ninguém sabe o que aconteceu com a obra pseudônima do francês. Já se disse que ela foi despedaçada por um membro do enojado comitê, que teria assim resolvido o problema de expô-la ou não. Por outro lado, uns dois dias depois, em sua galeria 291, Alfred Stieglitz tirou uma fotografia do notório objeto, mas talvez ele fosse uma versão refeita às pressas do readymade. Esse também desapareceu. Mas o grande poder das ideias é que não é possível desinventá-las. A fotografia de Stieglitz foi crucial. Ter Fonte fotografada por um dos profissionais mais respeitados do mundo, que vinha a ser também o dono de uma influente galeria de arte em Manhattan, foi importante por duas razões: primeiro, foi uma espécie de endosso pela vanguarda artística de que Fonte de Duchamp era uma obra de arte legítima, portanto merecedora de ser documentada como tal por uma galeria importante e uma figura muito reverenciada. Segundo, criou um registro fotográfico: uma prova documental da

17 existência do objeto. Os do contra podiam despedaçar a obra de Duchamp quantas vezes quisessem, ele podia voltar à loja de J.L. Mott, comprar uma nova e simplesmente copiar o traçado da assinatura da imagem de Stieglitz. E foi exatamente o que aconteceu. Quinze exemplares de Fonte endossados por Duchamp podem ser encontrados em coleções espalhadas pelo mundo. É curioso, quando uma dessas cópias é posta em exposição, ver as pessoas levarem a coisa tão a sério. Veem-se hordas de cultores da arte sem um sorriso, esticando o pescoço em volta do objeto, contemplando-o durante uma eternidade, examinando-o de todos os ângulos. É um mictório! Não é nem mesmo o original. A arte está na ideia, não no objeto. Marcel Duchamp teria se divertido com a reverência com que Fonte é tratada hoje em dia. Ele escolheu o objeto justo por sua falta de atrativo estético (algo que chamou de antirretiniano). É uma escultura readymade que nunca foi exibida em público, que nunca foi destinada a ser mais que uma brincadeira provocativa, mas que veio a se tornar a obra de arte mais influente criada no século XX. As ideias que representava influenciaram diretamente vários dos maiores e mais importantes movimentos artísticos, entre os quais o dadaísmo, o surrealismo, o expressionismo abstrato, a pop art e o conceitualismo. Marcel Duchamp é, inquestionavelmente, o artista mais reverenciado e citado pelos artistas de hoje, de Ai Weiwei a Damien Hirst. Sim, mas isso é arte? Ou é simplesmente uma piada duchampiana? Terá ele nos feito todos de bobos enquanto coçamos o queixo e apreciamos a mais recente exposição de arte contemporânea conceitual? Terá transformado em Mutts as legiões de colecionadores conduzidos por motoristas, os crédulos sacos de dinheiro que se deixaram cegar pela avareza a ponto de se tornarem orgulhosos proprietários de salas cheias de quinquilharias? E terá seu desafio aos curadores para que fossem progressistas e tivessem a mente aberta surtido o efeito contrário? Ao propor que uma ideia é mais importante que o meio, privilegiando assim a filosofia sobre a técnica, terá ele obstruído as escolas de arte com dogma, tornando-as amedrontadas e desdenhosas em relação à habilidade técnica? Ou terá sido um gênio que fez a arte se emancipar das trevas de seu bunker medieval, como Galileu fizera pela ciência trezentos anos antes, permitindo-lhe florescer e desencadear uma revolução intelectual de longo alcance? O da esquerda é um readymade, o do centro é um sósia e o outro é só um aspirante. Minha opinião é a última. Duchamp redefiniu o que a arte era e podia ser. Sem dúvida ela ainda incluía pintura e escultura, mas esses eram apenas dois meios entre inúmeros outros para comunicar a

18 ideia de um artista. É Duchamp que devemos culpar por todo o debate isso é arte?, o que, claro, é exatamente o que ele pretendia. A seu ver, o papel de um artista na sociedade era semelhante ao de um filósofo; não importava sequer se ele sabia pintar ou desenhar. O trabalho de um artista não era proporcionar prazer estético designers podiam fazer isso, mas afastar-se do mundo e tentar compreendê-lo ou comentá-lo por meio da apresentação de ideias sem nenhum propósito funcional além de si mesmas. Sua interpretação da arte foi levada ao extremo no final dos anos 1950 e 60 com a arte performática de pessoas como Joseph Beuys ( ), que se tornaram não só os criadores da ideia, mas o meio para ela também. A influência de Marcel Duchamp é onipresente ao longo de toda a história da arte moderna, seja como um dos primeiros seguidores do cubismo ou, mais recentemente, como o pai do conceitualismo. Mas ele não é a única estrela dessa história, que é rica de personalidades extraordinárias, todas elas desempenhando papéis de destaque: Claude Monet, Pablo Picasso, Frida Kahlo, Paul Cézanne e Andy Warhol. Além de nomes que talvez não sejam tão conhecidos, como Gustave Courbet, Katsushika Hokusai, Donald Judd e Kazimir Malevich. Duchamp emergiu da história da arte moderna; ele não a iniciou. Ela começou antes mesmo que ele nascesse, no século XIX, quando eventos mundiais conspiraram para fazer de Paris o lugar mais intelectualmente estimulante do planeta. Era uma cidade efervescente: o cheiro da revolução ainda enchia o ar. Mais do que um sopro dele estava sendo inalado por um grupo de artistas aventureiros prestes a derrubar a velha ordem mundial do establishment artístico e introduzir uma nova era na arte.

19 2. Pré-impressionismo: A confrontação da realidade, FOI UM INCIDENTE INCOMUM. Mais ainda pela localização. Era o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), pouco depois do horário de abertura numa tranquila manhã de segunda-feira. Eu era a única pessoa numa sala cheia de pinturas muito especiais e estivera me preparando calmamente para um pouco de plena fruição artística quando um alvoroço teve início na entrada da galeria. Sem aviso e com entusiasmo alarmante, o dom da visão havia sido tirado à força de um menino. Ele não percebera o que estava para acontecer e agora não conseguia enxergar. O ataque foi violentamente físico, a intenção da agressora, deliberada e precisa: a remoção das faculdades visuais do menino. Observei com assombro enquanto o garoto passava por mim conduzido de forma brusca até o outro lado da galeria por uma pessoa de olhar feroz, mas muito bem-vestida, que claramente trabalhava de acordo com um plano. O menino desequilibrado e desorientado tentava manter o equilíbrio antes de ser detido e postado de modo abrupto com o nariz a dois centímetros da parede. Agora ele respirava ruidosamente: aturdido e incomodado. Mas antes que pudesse decidir o que fazer, as duas mãos se afastaram de supetão de seu rosto. Ele piscou algumas vezes e olhou para a frente, nervoso. Em seguida vieram as perguntas. Então, o que você pode ver?, perguntou sua captora. Nada, respondeu ele, perplexo. Não seja ridículo, é claro que pode ver alguma coisa. Não, nada mesmo, é tudo um borrão. Dê um passo atrás, então, disse com aspereza a voz dominadora. O menino esticou a perna esquerda para trás e deu um passo para longe da parede. E? Humm não, não consigo entender nada, disse a criança com uma voz esganiçada, agitada. Por que está fazendo isso comigo?, perguntou. O que quer que eu diga? Deve saber que não posso ver nada. A mulher, cada vez mais frustrada, agarrou o menino pelos ombros e o arrastou uns três metros para trás, antes de indagar com óbvia irritação: Bem? O menino continuou imóvel encarando a parede, não disse nada. Após um longo silêncio, não pôde mais conter a emoção. Virou a cabeça devagar para a agressora. Isso é incrível, mãe. O rosto da mãe desapareceu sob um enorme sorriso que revelava dentes perfeitos e um irreprimível fulgor interno de felicidade. Eu sabia que você iria adorar, querido, gorjeou ela enquanto envolvia o menino num abraço classe A, do tipo que as crianças ganham após incidentes quase fatais ou um comportamento excepcionalmente feliz para os pais. Éramos as únicas pessoas na famosa sala dos Monets do MoMA, embora estivesse começando a me perguntar se eu existia, de tal modo mãe e filho ignoravam minha presença. Mas depois de soltar o menino, ela se virou para mim com o sorriso embaraçado de um adulto flagrado dançando Single

20 Ladies da Beyoncé. Explicou que eu havia testemunhado a culminação de um plano que ela vinha urdindo por meses, desde que providenciara para levar o filho mais velho (ele aparentava dez anos) numa viagem a Nova York enquanto o marido ficava em casa e cuidava das outras crianças. Ela havia imaginado que essa seria sua única oportunidade para imbuir no filho a apreciação que tinha pela magnificência das três paisagens gigantescas, do tamanho de murais, que dominam a sala as Nenúfares (c.1920). Era uma experiência imersiva para qualquer pessoa, mas para um menino não iniciado de dez anos podia provocar a sensação de se afogar em rosas e púrpuras, violetas e verdes. Tal é a natureza irresistível dessas paisagens tardias de Monet (não muita terra ou céu para ver, apenas reflexos na água) que o garoto deve ter desejado ter consigo um snorkel. Monet ( ) pintou o tríptico, que mede quase treze metros de um lado a outro, perto do fim da vida, tendo passado dias, meses e anos estudando o amado jardim aquático em sua casa em Giverny. Eram os efeitos da luz sempre cambiante na superfície da água que tanto cativavam o velho artista. Sua visão podia estar declinando, mas seu cérebro arguto e o dom para manipular tinta estavam tão presentes quanto haviam estado quando ele era jovem. Assim também sua inclinação para inovar. Tradicionalmente, pinturas de paisagem põem o espectador numa posição ideal, com claros pontos visuais de orientação. Não foi o que ocorreu na tardia grande paisagem de Monet, em que somos mergulhados no meio de um lago sem bordas ou cantos, entre íris e nenúfares, e não podemos fazer outra coisa senão ceder às suas mesmerizantes camadas de tinta multicolorida. Aparentemente, a inspiração para o excêntrico plano da mãe foram aqueles irritantes livros em 3D de imagens ocultas pelos quais as crianças eram loucas há algum tempo, mas que adultos normais (eu) nunca puderam entender. Fora sua experiência com eles que inspirara a decisão de agarrar o menino de surpresa, tapar-lhe os olhos com as mãos e levá-lo para o mais perto da tela que se atreveu. E em seguida fazê-lo recuar pouco a pouco. A esperança era que a efervescente visão de Monet fosse aos poucos se tornar clara em toda a sua glória compreensível, e assim ficar com o menino pelo resto de sua vida. E quem pode censurá-la por ter um fraco por Monet e seus companheiros impressionistas? Dessa vez, a familiaridade gerou não desdém, mas contentamento. Todos nós vimos exemplos de suas pinturas em que, de perto, há tão somente pinceladas individuais, mas, a cada passo para trás, o tema emerge miraculosamente. Nós os vimos em latas de biscoito, toalhas de chá e caixas velhas e amassadas com quebra-cabeças de mil peças. As dançarinas de Degas, os nenúfares de Claude Monet, os subúrbios arborizados de Camille Pissarro e a burguesia parisiense bem-vestida passeando ao sol metropolitano nas evocativas pinturas de Pierre-Auguste Renoir. Nenhum bazar de miudezas se consideraria adequadamente abastecido sem pelo menos um punhado dessas imagens clássicas reproduzidas em vários objetos baratos de uso doméstico. O trabalho dos impressionistas continua sendo uma parte onipresente do vernáculo visual. Mal passa um mês sem que uma manchete proclame que uma importante pintura impressionista quebrou mais um recorde num leilão ou foi furtada por um gatuno sofisticado e astucioso. O impressionismo é um ismo da arte moderna com que a maioria de nós se sente razoavelmente confiante e confortável. Acho que nós admitimos que quando comparadas com arte moderna mais recente as pinturas poderiam ser consideradas um pouco antiquadas, um tantinho seguras e talvez suspeitamente agradáveis aos olhos, mas, afinal, o que há de errado nisso? Elas são objetos encantadores que representam cenas reconhecíveis de uma maneira figurativa. É com imperturbável romantismo que vemos as pinturas do fim do século XIX dos impressionistas: os temas enevoados,

21 atmosféricos e tão franceses, as românticas imagens parisienses de piqueniques elegantes no parque, bebedores de absinto em bares e trens envoltos em vapor rumando com otimismo para um futuro ensolarado. No contexto da arte moderna, os mais tradicionalistas consideram os impressionistas o último grupo a produzir arte respeitável. Eles não gostavam de todo esse absurdo conceitual e esses rabiscos abstratos que vieram depois, mas produziam pinturas claras, bonitas e agradavelmente inofensivas. Na verdade, não é bem assim. Pelo menos, não era assim que as pessoas pensavam na época. Os impressionistas foram o grupo mais radical, rebelde, rompedor de barreiras e memorável em toda a história da arte. Eles suportaram privações pessoais e ridículo profissional na perseguição obstinada de sua visão artística. Rasgaram o livro de regras e, metaforicamente, abaixaram as calças e sacudiram seus traseiros coletivos para o establishment antes de começar a instigar a revolução global que hoje chamamos de arte moderna. Muitos movimentos artísticos do século XX, como o Young British Artists dos anos 1990, foram anunciados como subversivos e anárquicos, mas na verdade estavam longe disso. Os pintores impressionistas de aparência respeitável do século XIX, por outro lado, foram os fora da lei originais; foram de fato subversivos e anárquicos. Não de uma maneira predeterminada, mas porque não tiveram escolha. Ali estava um bando de irmãs e irmãos artísticos que tinham desenvolvido uma maneira original e fascinante de pintar em Paris e em seus arredores durante os anos 1860 e 70, mas em seguida descobriram que seu caminho para o sucesso estava bloqueado por um establishment artístico opressivo. O que deveriam fazer? Desistir? Talvez, se estivessem em outro momento e em outro lugar, mas não na Paris pósrevolucionária, onde os habitantes conservavam a alma inflamada por um espírito de rebelião. O problema para os impressionistas havia começado quando eles violaram as regras da todopoderosa e enfadonhamente burocrática Academia de Belas-Artes de Paris. A Academia esperava que os artistas fizessem obras baseadas em mitologia, iconografia religiosa ou na Antiguidade clássica num estilo que idealizava o tema. Esse tipo de falsificação não interessava a esse grupo de jovens e ambiciosos pintores. Eles queriam deixar seus ateliês e ir para fora a fim de documentar o mundo moderno à sua volta. Foi um movimento audacioso. Artistas simplesmente não andam por aí, pintando temas vulgares como pessoas comuns num piquenique, ou bebendo ou andando; não era isso que se fazia. Seria como se Steven Spielberg vendesse seus serviços para fazer vídeos de casamentos. Esperava-se dos artistas que permanecessem em seus ateliês e produzissem paisagens pitorescas ou imagens heroicas de formas humanas que remontassem ao tempo dos gregos antigos. Essa era a grande e boa arte exigida pelos poderosos para as paredes de suas belas casas e para os museus das cidades, e era isso que eles obtinham. Isto é, até que os impressionistas chegaram. Eles mudaram o jogo derrubando a parede entre ateliê e vida real. Muitos dos outros artistas haviam saído para observar e esboçar seu tema, mas em seguida voltavam a seus ateliês para incorporar suas observações em cenas ficcionais. Os impressionistas continuavam ao ar livre, onde começavam e terminavam suas pinturas da vida metropolitana moderna. Eles haviam chegado à conclusão de que seu novo assunto exigia uma nova abordagem técnica. Na época, o método aprovado e aceito de pintar estava no grande estilo de Leonardo, Michelangelo e Rafael, que havia sido exemplificado na França por Nicolas Poussin ( ), entre outros. A técnica do desenho era tudo. Arte era uma questão de precisão. Uma paleta de cores terrosas, tonais, devia ser misturada e aplicada à tela com pinceladas precisas que, ao longo de muitas, muitas horas e dias de trabalho, podiam ser aprimoradas até a imperceptibilidade. Por meio de gradações sutis entre luz e sombra, o objetivo era produzir uma pintura que desse a impressão de solidez tridimensional.

22 Isso tudo era ótimo quando se passava semanas a fio sentado numa sala aquecida, representando rebuscadamente uma cena dramatizada. Mas os impressionistas estavam fora, pintando en plein air (ao ar livre), onde a luz mudava a todo instante, algo muito diverso das condições controladas e artificiais do ateliê. Isso significava que se impunha uma mudança de abordagem. Se eles queriam captar a sensação de um momento fugaz com algum senso de verdade, a rapidez pertencia agora à essência. Não havia tempo para se alongar em laboriosas gradações de luz, porque a próxima vez que o artista levantasse os olhos elas teriam mudado. Em vez disso, pinceladas urgentes, toscas, aplicadas com imprecisão, substituíam o refinamento estudado, combinado, do grande estilo, pinceladas que os impressionistas não faziam nenhuma tentativa de esconder; ao contrário, eles acentuavam seu manejo do pincel pintando em toques grossos, curtos, coloridos, parecidos com vírgulas, que acrescentavam uma impressão de energia jovem a suas pinturas, refletindo o espírito de seu tempo. A tinta, pela primeira vez, tornava-se um meio cujas propriedades estavam sendo celebradas ao invés de disfarçadas atrás do artifício de uma ilusão pictórica. Tendo se comprometido a trabalhar in loco diante de seu tema, reproduzir com precisão os efeitos de luz que viam diante dos olhos tornou-se a obsessão dos impressionistas. Isso exige que o artista expulse noções preconcebidas sobre o objeto e a cor de sua mente como a de que morangos maduros são vermelhos para pintar os matizes e tons tais como os vê naquele momento particular à luz natural mesmo que isso signifique pintar um morango azul. Eles seguiam esse programa inflexivelmente, produzindo imagens que continham uma variedade de cores brilhantes como nunca se vira antes. Hoje elas parecem comuns, quase baças, em nosso mundo de televisão e cinema em alta definição, mas nos idos do século XIX eram tão surpreendentes quanto um verão quente na Inglaterra. A Academia, com sua mentalidade sombria, teve a reação previsível, condenando as pinturas como infantis e inconsequentes. Os impressionistas eram ridicularizados e repudiados como arrivistas artísticos, condenados por produzir arte que equivalia a nada mais que meros cartuns, e criticados por não fazerem pinturas respeitáveis. Essa reação os deixou perturbados, mas não derrotados. Eram um bando inteligente, beligerante e autoconfiante; deram de ombros e seguiram em frente. Eles escolheram bem seu momento. Todos os ingredientes necessários para uma ruptura com a tradição estavam reunidos na Paris pós-revolucionária: mudança política violenta, rápidos avanços tecnológicos, a emergência da fotografia, novas e estimulantes ideias filosóficas. Sentados em cafés, conversando, os jovens argutos viam a cidade mudar fisicamente diante de seus olhos. Paris estava sendo transformada de uma gruta medieval numa cidade avançada. Bulevares largos, iluminados e arejados substituíam as velhas ruas escuras, úmidas e imundas. Foi uma obra visionária de regeneração urbana conduzida por um dinâmico burocrata chamado barão Haussmann, nomeado pelo imperador Napoleão III. O imperador dos franceses, como ele se autodenominava, compartilhava alguma astúcia militar com seu famoso tio e podia perceber que a renovação de Paris iria não só fornecer uma resposta adequadamente sofisticada ao esplendor de Londres durante a Regência, mas também lhe dar alguma chance de permanecer no poder. Porque com a regeneração urbana vieram esplêndidas linhas de visão que se estendiam por toda a cidade, dando ao astuto autocrata uma vantagem tática caso quaisquer parisienses dissidentes pensassem em cometer mais desobediência civil temperada com intenção revolucionária.

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Author: Rev. Porsche Oberbrunner

Last Updated: 23/04/2023

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